CRÔNICA DA SEMANA: NA SUA ESTANTE

CRÔNICA DA SEMANA: NA SUA ESTANTE

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Dr. Ary com sua prima Daura

 

Dr. Ary com os padrinhos Everaldo e Luziete
Esta semana, a vida resolveu fazer novamente um roteiro para mim. Tudo que tinha programado se deu de forma contrária. Uma simples viagem cujo regresso teria que se dar no mesmo dia acabou por forças alheias a minha vontade, me obrigando a permanecer na cidade de Santarém por três dias. Tudo por causa da “Rebimboca da parafuseta” da viatura. No início relutei, pois todas as vezes que os fatos saem do meu script fico assim um tanto quanto estressado, invocado, mal humorado e quiçá “do avesso”, mas quando percebi que os fatos foram acontecendo em razão de uma VONTADE MAIOR, então pensei: “Que assim seja” e me lembrei de um texto que um dia escrevi intitulado “O roteiro da Vida”.
Nada é por acaso. E desta experiência, a conclusão que cheguei é que tenho parentes santarenos maravilhosos, com histórias fantásticas. Reencontrei uns e conheci e me reconheci em outros, inclusive na alegria de ver o pôr do sol.
– Prima Ivaína Soares me socorre. Estou rodado, preciso de abrigo. Vim resolver uma situação e nada deu certo, terei que ficar.
Falei todo esbaforido e suado, batendo na porta da casa da prima da mamãe.
– Entra Primo. Tome um banho. Já almoçou? Fica a vontade.
Ela falava tranquilamente e tons de voz baixa.
– Obrigado.
Nesses
Dr. Ary com sua prima Ivaína (+ uma vítima do 0800)

momentos de aflição é muito bom encontrarmos um rosto familiar, um traço do nosso DNA nas pequenas atitudes e na mão amiga estendida. Na verdade, eu sempre soube que ali, eu encontraria um porto seguro, mas não imaginava que comeria bolinhos de piracuí, uma das minhas iguarias favoritas. E nessas lambanças na casa da prima, mesmo com uma miopia de 7 graus, consegui ver algo na estante que me chamava atenção.

– Prima, quem é este senhor?
Perguntei.
– Também parente.
Laconicamente ela me respondeu, contudo, não contente fui puxando assunto e quando notei estava diante de uma história, que me ajudou até entender um pouco a minha.
– Quem prima? Qual o nome dele?
– Adalberto Oliveira do Amaral, pai do teu primo Manoel Joaquim Gomes do Amaral. Esta foto foi tirada para registro durante a 2ª Guerra Mundial, nos campos de batalha em algum lugar da Itália, que não sei especificar. Naquela época Adalberto foi recrutado pelo Exército Brasileiro para as frentes de combates.
Para Tudo e agora um minuto de atenção para História Mundial: A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo — incluindo todas as grandes potências — organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Foi a guerra mais abrangente da história, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Em estado de “guerra total”, os principais envolvidos dedicaram toda sua capacidade econômica, industrial e científica a serviço dos esforços de guerra, deixando de lado a distinção entre recursos civis e militares. Marcado por um número significante de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 a mais de 70 milhões de mortes. Geralmente considera-se o ponto inicial da guerra como sendo a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista em 1 de setembro de 1939 e subsequentes declarações de guerra contra a Alemanha pela França e pela maioria dos países do Império Britânico e da Commonwealth. No dia 1º de setembro de 1939, as forças nazistas alemãs de Adolf Hitler invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. 

O Brasil passou a participar do conflito a partir de 1942. Na época, o presidente da República era Getúlio Vargas. A princípio, a posição brasileira foi de neutralidade. Depois de alguns ataques a navios brasileiros, Getúlio Vargas decidiu entrar em acordo com o presidente americano Roosevelt para a participação do país na Guerra. Embora a história dos pracinhas – diminutivo de praça, que é soldado – seja ainda pouco comentada no Brasil, Marcus Firmino Santiago da Silva, coordenador do curso de Direito da Escola Superior Professor Paulo Martins, do Distrito Federal, e estudioso sobre a Segunda Guerra, afirma que a participação brasileira foi muito importante. “O apoio do Brasil foi disputado na Segunda Guerra. De forma um pouco velada por parte dos países do eixo (Alemanha, Itália e Japão) e de maneira clara pelos aliados, especialmente os norte-americanos, além da Inglaterra e da França”, afirma. O primeiro grupo de militares brasileiros chegou à Itália em julho de 1944. O Brasil ajudou os norte-americanos na libertação da Itália, que, na época, ainda estava parcialmente nas mãos do exército alemão.
0800 (para variar)
 Nosso país enviou cerca de 25 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB), e 42 pilotos e 400 homens de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB). Os pracinhas conseguem vitórias importantes contra os alemães, tomando cidades e regiões estratégicas que estavam no poder destes, como o Monte Castelo, Turim, Montese, entre outras. Mais de 14 mil alemães se renderam aos brasileiros, que também ficaram com despojos como milhares de cavalos, carros e munição. A ação dos pracinhas não foi fácil por vários motivos. O primeiro, porque o treinamento recebido no Brasil e nos Estados Unidos não era muito próximo à realidade da guerra que encontraram. Os soldados não estavam habituados ao clima frio dos montes Apeninos, que atravessam a Itália e nem acostumados a lutar em local montanhoso. Só na batalha do Monte Castelo, houve mais de 400 baixas entre os brasileiros. “Além disso, foi fundamental para o esforço de guerra a cessão de bases navais e aéreas no território brasileiro. Um desses locais que teve participação decisiva foi Natal, no Rio Grande do Norte”, afirma o professor. A capital potiguar serviu como local para abastecimento dos aviões de guerra americanos e base naval antissubmarinos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, a FEB foi desfeita em 1946 (Fonte: Site revistaescola.abril.com.br/historia/fundamentos).

Agora voltando ao diálogo.
– E Prima o que aconteceu com ele depois da guerra?
Perguntei.
– Ele voltou para o Brasil e foi residir em Óbidos/Pa, conheceu a minha sogra, Sra., Dirce Canto Gomes com quem casou, depois do casamento, ela passou se chamar Dirce Gomes do Amaral e da união nasceram 5 filhos.
– E depois Prima?
Perguntei como um daqueles alunos Nerds chatos do curso de Ciências Humanas (CH) e com toda paciência, ela continuou:
– Foi condecorado pelos bons préstimos. Casou, foi trabalhar na pecuária em suas terras, num local chamado Igarapé das fazendas, próximo à Juruti.
– E depois Prima?
Ela:
– Depois ele morreu.

 

– Como assim prima? Depois ele morreu? Fim? The end? Depois de tudo que ele passou. Não vale! Que final. Como vou contar isso nas minhas crônicas?
Falei, andando para um lado a outro naquela área ensolarada da casa. O primo Danilo somente achava graça.
– Não pode prima esse final não tá legal. Que aflição! Como assim ele morreu?! Fim. Ponto final.
– Arizinho, o que mais você quer que eu conte? Depois da guerra ele “tocou” a vida a frente como pecuarista neste local chamado de Igarapé das fazendas, casou, nasceram 5 filhos, dois homens e três mulheres, ele sempre contava histórias da frente de batalha, não voltou com sequelas da guerra e depois de certa idade veio residir em Santarém, vindo a falecer no ano de 1995. Antes que me perguntes não sei cadê a medalha.
– Prima, eu gostei da história. Obrigado, mas eu não posso dar esse final na minha crônica da semana. Estamos diante de um fato histórico e uma história de vida.
Falei agoniado, enquanto a prima Daura Soares Diniz acompanhava em silencio minha loucura.
– Tu escreve é?
Ela laconicamente me perguntou.
– Sim.
– Vou ler.
Disse Daura.
– Prima, vejo que a simplicidade, a coragem, o amor e a guerra estão no nosso DNA. Porém, preciso de um final. Gosto de finais, inclusive eles são tão importantes para as continuações, mas, não posso colocar assim: “Fim”.
– Mas, primo foi isso que aconteceu. Se ele estivesse vivo te contaria mais detalhes.
Calmamente ela falou, enquanto a mim eu estava até me conformando, mas algo gritava dentro de mim dizendo que a história ainda não tinha terminado.
– É, prima, tá bom. Por favor me dê um copo dágua. Prima Daura você quer água também?
– Quero.
De repente.
– Primo me lembrei tenho algo que você vai gostar.
Minutos depois ela volta:
– Olha o cantil dele de guerra. O cantil que ele tomava água.
Como uma criança, mas com a responsabilidade de um adulto, peguei naquela peça com o peito em festa.
– Genial prima. Parabéns. Sem palavras!
E emoção me tomou conta. Toquei na História. Agora posso dar um final, muito obrigado.
E quando eu pensei que já tinha dado um final a crônica, a vida me olha e diz: “Quem está escrevendo este roteiro hoje sou eu, ainda tem um convite para ti”.
– Primo, vamos ver o pôr-do-Sol na Orla? Adoro ver o Pôr-do-sol. Vamos?
Eu quero saber qual leonino se recusaria a um convite desses? E olha que Daura não sabia que amo e faço minhas orações de proteção ao pôr-do-sol, seja sob o céu de Rurópolis ou de Belém, porque não, não fazê-las em Santarém? E fui e o dia terminou assim com um novo recomeço, por isso gosto de finais, eles são importantes para as continuações, para recomeços.
Primas Ivaína e Daura, eternizo vocês na minha crônica, assim, in memorian, o primo Aderbal por todo seu mérito. É preciso ir mais a Santarém para conhecer um pouco meus parentes e também comer bolinho de Piracuí. Prima Daura, obrigado pelo convite, são momentos como esses que nos pagam e não dinheiro, cheque ou glamour.

 

E finalizando:
Entre o real e o imaginário, entre a verdade e a fantasia sob o céu de Santarém, o que nem eu já sei mais, encerro a crônica da semana. Um beijo à todos, fiquem com Deus e até semana que vem. Ariosnaldo da Silva Vital Filho.
Nota:

 

Beijo especial aos meus padrinhos residentes em Santarém Everaldo e Luziete Diniz pelo carinho, os quais soube que também são leitores das minhas crônicas semanais e a Eveniz Diniz parabenizo pelo nascimento do primo Lucas. Padrinhos obrigado pela benção, no final tudo deu certo. Amém.
Continuo sem entender de nada, mas esse pessoal também são meus primos e o patriarca padrinho… embora não tenha tido a oportunidade de conhecer os primos, filhos… entenderam??? Nem eu! H. Marinho